Escaras (Úlceras por Pressão): Classificação por Estágio, Tratamento e Curativo em Casa
Uma escara estágio 4 com osso exposto começa com 2 horas de pressão sobre uma área de 2 cm. O que separa o estágio 1 do estágio 4 não é o tempo de evolução — é o que foi ou deixou de ser feito. Este guia mostra como identificar cada estágio, qual curativo usar, como tratar em casa e quando a situação requer atenção hospitalar.

95%
das escaras são evitáveis com cuidados preventivos adequados
2h
de pressão contínua já causa dano tissular irreversível em paciente de alto risco
6×
mais cara é a hospitalização por complicação de escara vs prevenção domiciliar
Cluster: Paciente Acamado em Casa
O que é uma escara e como ela se forma
Uma lesão por pressão (termo técnico atual) ou escara é um dano à pele e tecidos subjacentes causado por pressão prolongada sobre uma proeminência óssea, isoladamente ou em combinação com forças de cisalhamento (quando o paciente desliza na cama). O mecanismo é simples: a pressão comprime os vasos sanguíneos, interrompe o fluxo de oxigênio e nutrientes, e as células morrem.
Vasoconstrição
Capilares se estreitam. Sem sintoma visível. Alívio de pressão ainda reverte tudo.
Isquemia tissular
Células sem O₂. Pele vermelha (estágio 1). Ainda reversível com alívio imediato.
Necrose celular
Morte celular irreversível. Estágio 1 evolui para 2, 3 ou 4 em horas a dias.
As 9 proeminências ósseas de maior risco — inspecione a cada mudança de posição
Sacro / Cóccix
★★★★★
Dorsal
Calcanhares
★★★★★
Dorsal
Trocânteres
★★★★
Lateral
Maléolos
★★★
Lateral
Joelhos
★★★
Lateral
Cotovelos
★★★
Dorsal
Escápulas
★★
Dorsal
Orelhas
★★
Lateral
Occipital
★★
Dorsal
Classificação por estágio: como identificar cada um
Sistema NPUAP/EPUAP — padrão internacional. Selecione o estágio para ver descrição, aparência, tratamento e curativo indicado.
Estágio 1 — Eritema não branqueável
Tratável em casa (com orientação)Pele íntegra com vermelhidão localizada, geralmente sobre proeminência óssea. A vermelhidão NÃO desaparece quando se pressiona com o dedo (hiperemia não branqueável). Este é o sinal mais precoce de dano tissular — e o único estágio 100% reversível.
Como aparece:
Área avermelhada, rosada ou violácea em pele escura. Pode estar mais quente, mais fria, edemaciada ou mais firme que a pele ao redor. SEM ferida aberta.
Protocolo de tratamento
Aliviar TODA pressão sobre a área imediatamente — coxim, mudança de posição a cada 1h
Não massagear a área vermelha — massagem na hiperemia causa mais dano tissular
Aplicar filme transparente de poliuretano (Tegaderm) para proteção mecânica
Hidratante emoliente sem álcool na pele ao redor (não sobre a lesão)
Avaliação diária da área — se não regredir em 24h, acione enfermeiro
Curativo indicado
Filme de poliuretano ou hidrocoloide fino
Exemplos de produto
Tegaderm, Comfeel Thin, Duoderm Thin
Frequência de troca
A cada 3–5 dias ou se descolar
Se não regredir em 24–48h com alívio total de pressão: avalie se há lesão tissular profunda oculta — acione enfermeiro.
Regra de ouro: nunca use produtos agressivos na ferida
Povidine (PVPI), água oxigenada e álcool são contraindicados em lesões por pressão — destroem as células de granulação e atrasam a cicatrização. O único produto seguro para limpeza da ferida é soro fisiológico 0,9% (SF), aplicado com leve pressão de irrigação (não com algodão, que solta fibras).
Avaliação de risco: quem tem mais chance de desenvolver escara
A Escala de Braden é o instrumento validado internacionalmente para avaliar risco. Quanto mais fatores de risco o paciente tiver, mais intensivas devem ser as medidas preventivas.
Percepção sensorial
Alto risco:
Sem resposta a estímulos dolorosos
Baixo risco:
Responde a comandos verbais, sem déficit
Umidade da pele
Alto risco:
Pele permanentemente úmida (suor, fralda)
Baixo risco:
Pele seca — mudança de roupa rara
Atividade física
Alto risco:
Confinado ao leito
Baixo risco:
Caminha frequentemente
Mobilidade
Alto risco:
Completamente imóvel
Baixo risco:
Muda de posição frequentemente e sozinho
Nutrição
Alto risco:
Nunca come refeição completa, raramente come 1/3
Baixo risco:
Come mais de 4 refeições. Não precisa de suplemento
Fricção e cisalhamento
Alto risco:
Requer ajuda total — escorrega na cama
Baixo risco:
Não precisa de ajuda para mover-se
Interpretação do risco combinado
Baixo risco
1–2 fatores presentes. Cuidados preventivos padrão: mudança a cada 2h, inspeção diária.
Risco moderado
3–4 fatores. Mudança a cada 1–2h, colchão viscoelástico, avaliação de enfermeiro.
Alto risco
5–6 fatores (paciente caquético, imóvel, incontinente, sem sensação). Mudança a cada 1h, colchão de ar com alternância automática, suporte nutricional, acompanhamento intensivo.
Guia de curativos: qual usar em cada situação
Mecanismo de ação:
Gel formado por interação com o exsudato mantém ambiente úmido, estimula autodesbridamento e protege de contaminação externa.
Indicado para:
- Estágio 2 — ferida úmida superficial
- Necrose fibrinosa leve (autodesbridamento)
- Proteção de área íntegra de risco
Contraindicado em:
- Infecção ativa
- Exsudato muito abundante
- Ferida profunda com tunelização
- Necrose seca dura
Exemplos comerciais:
Comfeel Plus, Duoderm Extra Thin, Tegasorb
Frequência de troca:
A cada 3–5 dias (trocar antes se descolando ou saturado)
Aqueça levemente o curativo com as mãos antes de aplicar — adere melhor.
Nutrição e cicatrização: o que comer para fechar a ferida
Uma ferida não cicatriza sem os nutrientes certos. A desnutrição é a segunda causa mais comum de escara que não evolui — depois da pressão não aliviada.
Proteína
1,2 a 1,5g/kg/dia (para escara ativa)
Vitamina C
500–1000mg/dia (via suplemento se necessário)
Zinco
15–30mg/dia (suplementação se baixo)
Vitamina A
700–900 mcg/dia (equivalente de retinol)
Água / Hidratação
1,5 a 2 litros/dia (sem restrição médica)
Calorias totais
30–35 kcal/kg/dia
Quando suspeitar de desnutrição que compromete a cicatrização
Em qualquer desses casos: solicite avaliação de nutricionista. Suplementos orais (Ensure, Fresubin, Nutridrink) podem ser indicados pelo médico.
Sinais de infecção e quando ir ao hospital
Sinais locais de infecção da ferida
Exsudato turvo, amarelo-esverdeado ou purulento
Odor fétido característico (diferente do exsudato normal)
Bordas da ferida avermelhadas, quentes, endurecidas
Aumento súbito do tamanho da ferida sem causa aparente
Tecido de granulação friável (sangra ao toque leve)
Dor desproporcional na área da ferida
Sinais sistêmicos — emergência médica
Febre acima de 38°C + piora da ferida
PRONTO-SOCORRO no mesmo dia
Confusão mental súbita + escara conhecida
SAMU 192 — possível sepse de origem cutânea
Osso visível ou palpável na ferida
AVALIAÇÃO MÉDICA urgente — risco de osteomielite
Vermelhidão se espalhando além da borda (celulite)
PRONTO-SOCORRO — antibiótico intravenoso pode ser necessário
Calafrios, tremores, FC acelerada
SAMU 192 — síndrome séptica
Osteomielite: a complicação mais grave da escara
A osteomielite (infecção do osso) ocorre em 17–32% das escaras estágio 4 e é de tratamento complexo — frequentemente exige antibioticoterapia intravenosa prolongada (4–6 semanas) e desbridamento cirúrgico ósseo. Os sinais: osso exposto, odor muito intenso, febre recorrente sem foco aparente, ferida que não cicatriza há meses apesar de cuidados corretos. Investigação: radiografia simples (baixa sensibilidade), ressonância magnética (padrão ouro) ou cintilografia óssea.
Artigos do cluster: cuidado completo do paciente acamado
Mudança de Decúbito Passo a Passo
Protocolo de 2h, 5 posições, técnica com 1 e 2 cuidadores
Equipamentos: Comprar, Alugar ou SUS
Colchão anti-escaras, coxins, cama hospitalar — tabela de preços
Como Preparar o Quarto
Colchão certo por nível de risco + checklist de 40 itens
Cuidados Pós-Alta Hospitalar
Protocolo das primeiras 72h em casa
A melhor escara é a que nunca se formou
95% das escaras são evitáveis. A mudança de decúbito a cada 2 horas, a inspeção diária da pele e a nutrição adequada são medidas simples que, aplicadas consistentemente, eliminam praticamente todo o risco. Quando a lesão já existe, identificar o estágio correto e usar o curativo adequado — sempre com orientação de enfermeiro — é o que faz a diferença entre uma ferida que fecha em semanas e uma que progride para complicação grave.
Para avaliação gratuita de feridas por enfermeiro: solicite visita do NASF pela UBS de referência. O serviço de estomaterapia é oferecido pelo SUS em muitos municípios.
Perguntas frequentes
Estágio 1: vermelhidão que não desaparece ao pressionar. Estágio 2: bolha ou erosão superficial. Estágio 3: tecido gorduroso visível. Estágio 4: músculo ou osso exposto. Com necrose que cobre o fundo: inclassificável até desbridamento. Área escura sem ferida aberta: lesão tissular profunda.
Estágios 1 e 2 podem ser tratados em casa com orientação profissional. Estágio 3 requer avaliação presencial regular de enfermeiro/médico. Estágio 4 quase sempre precisa de equipe especializada — risco alto de osteomielite. Qualquer estágio com infecção (febre, odor fétido, exsudato purulento): avaliação médica urgente no mesmo dia.
Estágio 1: apenas hidratante, sem curativo. Estágio 2 úmido: hidrocoloide. Estágio 2 com bolha: espuma sem romper. Estágio 3 moderado: espuma. Estágio 3 com muito exsudato: alginato. Necrose: não use hidrocoloide — encaminhe para desbridamento profissional. A troca deve ser sempre orientada por enfermeiro.
Estágio 1: 24–48h com alívio de pressão. Estágio 2: 1–4 semanas. Estágio 3: 1 mês a vários meses. Estágio 4: meses a mais de 1 ano. Retarda a cicatrização: pressão mantida, desnutrição, desidratação, diabetes descompensado, anemia e infecção ativa.
Os 5 pilares: 1) Mudança de decúbito a cada 2h; 2) Colchão correto por nível de risco; 3) Inspeção diária da pele das proeminências; 4) Proteína 1,2–1,5g/kg/dia; 5) Hidratante sem álcool nas áreas de risco pelo menos 1x/dia.
Necrose seca (preta, dura) ou fibrinosa (amarela, úmida). Tratamento: desbridamento — autolítico (curativo úmido), enzimático (colagenase, prescrita), ou cirúrgico (profissional). Nunca remova necrose seca dura em casa — risco de sangramento e infecção grave.
Estágio 1: regride sem cicatriz com alívio de pressão. Estágio 2: fecha com cicatriz rasa. Estágios 3 e 4: fecham com cicatriz fibrosa (mais frágil que a pele original, sem elasticidade). A área cicatrizada tem risco maior de recidiva — prevenção deve ser ainda mais rigorosa naquele local.
7 perguntas respondidas
Artigos relacionados
Ver todos
Cuidados Pós-Alta Hospitalar: O que Preparar em Casa Antes do Paciente Chegar
Checklist completo para receber o familiar do hospital: quarto, medicamentos, alimentação e protocolo das primeiras 72 horas em casa para evitar reinternações.
Cuidador Particular ou Empresa de Home Care: Qual Escolher Sem Correr Riscos?
Vantagens, riscos, custos reais e qual opção é ideal para cada situação familiar. Guia completo para decidir sem errar e sem correr riscos.
7 Erros que Famílias Cometem ao Cuidar de Idoso em Casa
Descubra os erros mais comuns no cuidado domiciliar de idosos — escaras, medicamentos errados, desidratação — e como corrigir cada um antes que causem danos.