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Escaras (Úlceras por Pressão): Classificação por Estágio, Tratamento e Curativo em Casa

Uma escara estágio 4 com osso exposto começa com 2 horas de pressão sobre uma área de 2 cm. O que separa o estágio 1 do estágio 4 não é o tempo de evolução — é o que foi ou deixou de ser feito. Este guia mostra como identificar cada estágio, qual curativo usar, como tratar em casa e quando a situação requer atenção hospitalar.

22 de Março de 202616 min de leituraPor Equipe Cuidador Prático
Enfermeira realizando curativo de escara em paciente acamado com técnica asséptica

95%

das escaras são evitáveis com cuidados preventivos adequados

2h

de pressão contínua já causa dano tissular irreversível em paciente de alto risco

mais cara é a hospitalização por complicação de escara vs prevenção domiciliar

Cluster: Paciente Acamado em Casa

O que é uma escara e como ela se forma

Uma lesão por pressão (termo técnico atual) ou escara é um dano à pele e tecidos subjacentes causado por pressão prolongada sobre uma proeminência óssea, isoladamente ou em combinação com forças de cisalhamento (quando o paciente desliza na cama). O mecanismo é simples: a pressão comprime os vasos sanguíneos, interrompe o fluxo de oxigênio e nutrientes, e as células morrem.

30 min

Vasoconstrição

Capilares se estreitam. Sem sintoma visível. Alívio de pressão ainda reverte tudo.

1–2h

Isquemia tissular

Células sem O₂. Pele vermelha (estágio 1). Ainda reversível com alívio imediato.

2h+

Necrose celular

Morte celular irreversível. Estágio 1 evolui para 2, 3 ou 4 em horas a dias.

As 9 proeminências ósseas de maior risco — inspecione a cada mudança de posição

Sacro / Cóccix

★★★★★

Dorsal

Calcanhares

★★★★★

Dorsal

Trocânteres

★★★★

Lateral

Maléolos

★★★

Lateral

Joelhos

★★★

Lateral

Cotovelos

★★★

Dorsal

Escápulas

★★

Dorsal

Orelhas

★★

Lateral

Occipital

★★

Dorsal

Classificação por estágio: como identificar cada um

Sistema NPUAP/EPUAP — padrão internacional. Selecione o estágio para ver descrição, aparência, tratamento e curativo indicado.

Estágio 1 — Eritema não branqueável

Tratável em casa (com orientação)

Pele íntegra com vermelhidão localizada, geralmente sobre proeminência óssea. A vermelhidão NÃO desaparece quando se pressiona com o dedo (hiperemia não branqueável). Este é o sinal mais precoce de dano tissular — e o único estágio 100% reversível.

Como aparece:

Área avermelhada, rosada ou violácea em pele escura. Pode estar mais quente, mais fria, edemaciada ou mais firme que a pele ao redor. SEM ferida aberta.

Localização mais frequente:SacroCalcanharesTrocânterCotoveloOrelha

Protocolo de tratamento

1

Aliviar TODA pressão sobre a área imediatamente — coxim, mudança de posição a cada 1h

2

Não massagear a área vermelha — massagem na hiperemia causa mais dano tissular

3

Aplicar filme transparente de poliuretano (Tegaderm) para proteção mecânica

4

Hidratante emoliente sem álcool na pele ao redor (não sobre a lesão)

5

Avaliação diária da área — se não regredir em 24h, acione enfermeiro

Curativo indicado

Filme de poliuretano ou hidrocoloide fino

Exemplos de produto

Tegaderm, Comfeel Thin, Duoderm Thin

Frequência de troca

A cada 3–5 dias ou se descolar

Se não regredir em 24–48h com alívio total de pressão: avalie se há lesão tissular profunda oculta — acione enfermeiro.

Regra de ouro: nunca use produtos agressivos na ferida

Povidine (PVPI), água oxigenada e álcool são contraindicados em lesões por pressão — destroem as células de granulação e atrasam a cicatrização. O único produto seguro para limpeza da ferida é soro fisiológico 0,9% (SF), aplicado com leve pressão de irrigação (não com algodão, que solta fibras).

Avaliação de risco: quem tem mais chance de desenvolver escara

A Escala de Braden é o instrumento validado internacionalmente para avaliar risco. Quanto mais fatores de risco o paciente tiver, mais intensivas devem ser as medidas preventivas.

1

Percepção sensorial

Alto risco:

Sem resposta a estímulos dolorosos

Baixo risco:

Responde a comandos verbais, sem déficit

2

Umidade da pele

Alto risco:

Pele permanentemente úmida (suor, fralda)

Baixo risco:

Pele seca — mudança de roupa rara

3

Atividade física

Alto risco:

Confinado ao leito

Baixo risco:

Caminha frequentemente

4

Mobilidade

Alto risco:

Completamente imóvel

Baixo risco:

Muda de posição frequentemente e sozinho

5

Nutrição

Alto risco:

Nunca come refeição completa, raramente come 1/3

Baixo risco:

Come mais de 4 refeições. Não precisa de suplemento

6

Fricção e cisalhamento

Alto risco:

Requer ajuda total — escorrega na cama

Baixo risco:

Não precisa de ajuda para mover-se

Interpretação do risco combinado

Baixo risco

1–2 fatores presentes. Cuidados preventivos padrão: mudança a cada 2h, inspeção diária.

Risco moderado

3–4 fatores. Mudança a cada 1–2h, colchão viscoelástico, avaliação de enfermeiro.

Alto risco

5–6 fatores (paciente caquético, imóvel, incontinente, sem sensação). Mudança a cada 1h, colchão de ar com alternância automática, suporte nutricional, acompanhamento intensivo.

Guia de curativos: qual usar em cada situação

Mecanismo de ação:

Gel formado por interação com o exsudato mantém ambiente úmido, estimula autodesbridamento e protege de contaminação externa.

Indicado para:

  • Estágio 2 — ferida úmida superficial
  • Necrose fibrinosa leve (autodesbridamento)
  • Proteção de área íntegra de risco

Contraindicado em:

  • Infecção ativa
  • Exsudato muito abundante
  • Ferida profunda com tunelização
  • Necrose seca dura

Exemplos comerciais:

Comfeel Plus, Duoderm Extra Thin, Tegasorb

Frequência de troca:

A cada 3–5 dias (trocar antes se descolando ou saturado)

Aqueça levemente o curativo com as mãos antes de aplicar — adere melhor.

Nutrição e cicatrização: o que comer para fechar a ferida

Uma ferida não cicatriza sem os nutrientes certos. A desnutrição é a segunda causa mais comum de escara que não evolui — depois da pressão não aliviada.

Proteína

1,2 a 1,5g/kg/dia (para escara ativa)

Vitamina C

500–1000mg/dia (via suplemento se necessário)

Zinco

15–30mg/dia (suplementação se baixo)

Vitamina A

700–900 mcg/dia (equivalente de retinol)

Água / Hidratação

1,5 a 2 litros/dia (sem restrição médica)

Calorias totais

30–35 kcal/kg/dia

Quando suspeitar de desnutrição que compromete a cicatrização

Ferida estagnada há mais de 2 semanas sem progressão visível
Paciente comendo menos de 50% das refeições regularmente
Perda de peso não intencional nos últimos 3 meses
Exames com albumina < 3,0 g/dL ou pré-albumina baixa

Em qualquer desses casos: solicite avaliação de nutricionista. Suplementos orais (Ensure, Fresubin, Nutridrink) podem ser indicados pelo médico.

Sinais de infecção e quando ir ao hospital

Sinais locais de infecção da ferida

Exsudato turvo, amarelo-esverdeado ou purulento

Odor fétido característico (diferente do exsudato normal)

Bordas da ferida avermelhadas, quentes, endurecidas

Aumento súbito do tamanho da ferida sem causa aparente

Tecido de granulação friável (sangra ao toque leve)

Dor desproporcional na área da ferida

Sinais sistêmicos — emergência médica

Febre acima de 38°C + piora da ferida

PRONTO-SOCORRO no mesmo dia

Confusão mental súbita + escara conhecida

SAMU 192 — possível sepse de origem cutânea

Osso visível ou palpável na ferida

AVALIAÇÃO MÉDICA urgente — risco de osteomielite

Vermelhidão se espalhando além da borda (celulite)

PRONTO-SOCORRO — antibiótico intravenoso pode ser necessário

Calafrios, tremores, FC acelerada

SAMU 192 — síndrome séptica

Osteomielite: a complicação mais grave da escara

A osteomielite (infecção do osso) ocorre em 17–32% das escaras estágio 4 e é de tratamento complexo — frequentemente exige antibioticoterapia intravenosa prolongada (4–6 semanas) e desbridamento cirúrgico ósseo. Os sinais: osso exposto, odor muito intenso, febre recorrente sem foco aparente, ferida que não cicatriza há meses apesar de cuidados corretos. Investigação: radiografia simples (baixa sensibilidade), ressonância magnética (padrão ouro) ou cintilografia óssea.

Artigos do cluster: cuidado completo do paciente acamado

A melhor escara é a que nunca se formou

95% das escaras são evitáveis. A mudança de decúbito a cada 2 horas, a inspeção diária da pele e a nutrição adequada são medidas simples que, aplicadas consistentemente, eliminam praticamente todo o risco. Quando a lesão já existe, identificar o estágio correto e usar o curativo adequado — sempre com orientação de enfermeiro — é o que faz a diferença entre uma ferida que fecha em semanas e uma que progride para complicação grave.

Para avaliação gratuita de feridas por enfermeiro: solicite visita do NASF pela UBS de referência. O serviço de estomaterapia é oferecido pelo SUS em muitos municípios.

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Perguntas frequentes

Estágio 1: vermelhidão que não desaparece ao pressionar. Estágio 2: bolha ou erosão superficial. Estágio 3: tecido gorduroso visível. Estágio 4: músculo ou osso exposto. Com necrose que cobre o fundo: inclassificável até desbridamento. Área escura sem ferida aberta: lesão tissular profunda.

Estágios 1 e 2 podem ser tratados em casa com orientação profissional. Estágio 3 requer avaliação presencial regular de enfermeiro/médico. Estágio 4 quase sempre precisa de equipe especializada — risco alto de osteomielite. Qualquer estágio com infecção (febre, odor fétido, exsudato purulento): avaliação médica urgente no mesmo dia.

Estágio 1: apenas hidratante, sem curativo. Estágio 2 úmido: hidrocoloide. Estágio 2 com bolha: espuma sem romper. Estágio 3 moderado: espuma. Estágio 3 com muito exsudato: alginato. Necrose: não use hidrocoloide — encaminhe para desbridamento profissional. A troca deve ser sempre orientada por enfermeiro.

Estágio 1: 24–48h com alívio de pressão. Estágio 2: 1–4 semanas. Estágio 3: 1 mês a vários meses. Estágio 4: meses a mais de 1 ano. Retarda a cicatrização: pressão mantida, desnutrição, desidratação, diabetes descompensado, anemia e infecção ativa.

Os 5 pilares: 1) Mudança de decúbito a cada 2h; 2) Colchão correto por nível de risco; 3) Inspeção diária da pele das proeminências; 4) Proteína 1,2–1,5g/kg/dia; 5) Hidratante sem álcool nas áreas de risco pelo menos 1x/dia.

Necrose seca (preta, dura) ou fibrinosa (amarela, úmida). Tratamento: desbridamento — autolítico (curativo úmido), enzimático (colagenase, prescrita), ou cirúrgico (profissional). Nunca remova necrose seca dura em casa — risco de sangramento e infecção grave.

Estágio 1: regride sem cicatriz com alívio de pressão. Estágio 2: fecha com cicatriz rasa. Estágios 3 e 4: fecham com cicatriz fibrosa (mais frágil que a pele original, sem elasticidade). A área cicatrizada tem risco maior de recidiva — prevenção deve ser ainda mais rigorosa naquele local.

7 perguntas respondidas